Lua de mel

Lua de mel! Tudo era novo,
velho mesmo, só o nosso amor.
Lua de mel! Tudo era lindo,
esplêndido, só o nosso amor.
Mágicos momentos de nós dois!
Medo e desejo brigavam!
Caíam as roupas pelo quarto...
Ébrios, nossos corpos bailavam.

Ah, que festa de amor!
Perfeita como as estrelas no céu!
Não deveria jamais ter fim
o bailado da lua de mel.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Sem ressentimento

Perdão! Deixei-te falando sozinho;
Mas sei que tu me compreenderás;
por que continuar este caminho,
se o tesouro ficou para trás?
Reserve-se aos mortos o descanso,
percam-se no ar, deste amor as cinzas.
Meu barco, em outro lago, corre manso,
livre de ressentimentos ranzinzas.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Prece

Quando rombudos espinhos
minha alma dilacerar,
tenha eu habilidade
para o divino laser manejar.
Quando da vida, o momento derradeiro
chegar, espero, serenamente, poder dizer:
missão cumprida, nada a reclamar.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

O que eu quero de você

Queres dar-me um presente?
Dá-me um pouco da tua atenção,
pra que eu possa te dizer
da alegria que sinto em te conhecer.
Queres dar-me um presente?
Dá-me, por um segundo, tua mão,
pra que eu sinta o pulsar de tuas veias
e assim, chegar ao teu coração.
Queres dar-me um presente?
Dá-me uma lágrima tua,
pra que eu sinta de tua alma toda nobreza
e agradeça a Deus tua humana natureza.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Minha mente

Minha mente, jardim de perpétuas, saudades,
primaveras, flutuando em salsas águas
de um outono em retirada.
Minha mente, museu de antigüidade:
Pássaros, flores, cores, muitas cores...
Um céu azul, sublime azul que não volta mais.
Minha mente, laboratório de pesquisa,
em incessante busca de uma fórmula ideal.
Verdades e mentiras se mesclam, ganham corpo,
ganham vida... Morrem ao rugido da fera.
E retornam e vão... E tornam a voltar,
neste constante poder de morrer e ressuscitar,
até que a verdade, num brado final,
determine a vida...
A vida desta pobre mortal.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Passos

De repente, passos na calçada...
Passos de quem está com muita pressa,
passos de quem tem muito a realizar.
Lembrei-me então, de uma promessa,
há longo tempo adormecida...
Pretensiosa, ousei pensar...
Eram seus aqueles firmes passos.
Passos que arrepiam, que ressuscitam
mortos desejos, passos de amor,
excitantes, emergentes... Passos
que falam, que embalam, que gritam,
que acendem luzes ao sonhador.
Passos se perdem... Silêncio fala...
Luzes se apagam... Vazio na sala.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Gravura

Mesclando sonho à realidade,
para suavizar a caminhada,
desenhei você, felicidade,
com jeito, assim... De quem quer nada.

Ah, amiga, que perfeição de traços!
Todo o requinte da fantasia;
cheguei, mesmo, a traçar seus passos;
com olhos de amor, você sorria.

Era tal a impressão destes traços,
que até te tornaste real;
mas, quando me abriste os braços,
arrastou-me violento vendaval.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Brinquedo maior

Já houve tempo em que qualquer brinquedo
alimentava minha fantasia;
já houve tempo em que andar descalça
era pra mim motivo de alegria;
belos tempos de cores e luares,
pura inocência adornando altares.

As dores eram físicas apenas,
as mágoas vinham ligeiras, pequenas;
sob as árvores ou no rio nadando,
minha rósea infância ia passando.
Ah, tempo de velozes sentimentos,
mescla-se hoje aos grandes tormentos.

Zeraram-se as cores, os luares,
as dores infiltraram-se em minh’alma,
morreram as flores, ruíram altares,
o dissabor deita, rola, se espalma.
Ah! Tempo cruel de dor e saudade,
traz-me o brinquedo Felicidade.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Intuição

Meus olhos são surdo-mudos
não falam, não entendem teu olhar;
porém, minh’alma se rejubila
às vibrações do teu pensar.

Tuas mãos transmitem frases
que lábios jamais proferiram;
diz-me a intuição maravilhas
de quando teus olhos me viram.

Por esta força invisível,
falo sem medo de errar:
Tu es a felicidade, a luz!
Amor; soletro em teu olhar.

Zenaide Elias
do livro Pingos e Respingos

Trovas

Somos seres limitados,
todavia, inúteis não.
Os diamantes lapidados
valiosas jóias são.

Antes de procurares
nos outros a perfeição
olha bem dentro de ti.
Dá para encarar-te, irmão?

Somos talvez diferentes
do dito normal padrão.
Mas se há força de vontade,
eis resolvida a questão.

Zenaide Elias
do livro Verso e Reverso