A Santidade

O santo de hoje em dia
viaja de carro a álcool,
grita no trânsito, xinga,
chega atrasado no emprego.
O santo de hoje em dia
vai ao estádio aos domingos,
come pipoca, paquera,
vê novelas na TV.
O santo de hoje em dia
joga baralho, boliche,
sinuca e vôlei de praia,
vai ao shopping, ao cinema,
gosta de rock, usa saia.
O santo de hoje em dia
vai eventualmente à missa
ou ao culto de domingo,
faz churrasco, tem preguiça
e, às vezes, se mete em brigas.
Mas, o que há de comum
entre o santo de hoje em dia
e o santo de antigamente,
é uma lágrima quente
que rola triste na face
diante da injustiça.
O santo de hoje me dia
não é um santo bucólico,
mas é um homem sensível.

Otacílio César Monteiro
Registro Biblioteca Nacional RJ


O Prazer da Procura

Procuro
No meio do escuro
Procuro
Pelo simples e puro
Prazer da procura
Procuro.
Às vezes
Há luzes no fundo
Há luzes à frente
Dos túneis do mundo
Presente
Depois
Mais um tempo duro
Escuro profundo a ser desvendado:
Futuro.

Otacílio César Monteiro
Registro Biblioteca Nacional RJ

Espaço

Senhoras e senhores,
Eu estou aqui.
Presente,
no lugar e na hora
presente.
Minh’alma e meu corpo
agora sorriem,
andando, contentes,
de braços
com a mente.
Senhoras e senhores,
eu estou aqui,
inteiro,
no lugar e na hora
presente
corpo, alma e pensamento
no espaço necessário
para se atingir o ápice,
beber do cálice doce
da vida contemporânea.

Otacílio César Monteiro
Registro Biblioteca Nacional RJ

A Auto Imagem

Digo sempre bom dia ao gênio
que pensa dentro de mim,
para que ele não se canse
da minha presença
e me abandone.
Digo sempre bom dia ao simples
que vive dentro de mim,
para que ele não sinta
vergonha de minhas roupas
e se retire.
Digo sempre bom dia ao belo
que brilha dentro de mim,
para alimentar meu ego
a fim de que ele sempre
esteja fortalecido.
Enfim, digo sempre bom dia
ao meu amigo do espelho
que, a cada dia que passa,
torna-se bem mais simpático
a quem lhe empresta a imagem.

Otacílio César Monteiro
Registro Biblioteca Nacional RJ


Mutações

Quando olhei nos olhos da vida
E ela piscou para mim,
Senti um grande arrepio.
E eu que era tão frio,
Calculista e incapaz
De amar e ser amado,
Nunca mais fiquei vazio.
É por isso que me pego
Sempre de braços abertos,
A colecionar amigos
A reinventar amores.
Passo ao largo dos espinhos,
Prefiro a senda das flores!

Otacílio César Monteiro
Registro Biblioteca Nacional RJ

Raízes e Asas

Um dia os três estados
Serão um só!
O gás vai se juntar à água
E a água ao pó.
O amor flutuará, liberto
De preconceitos e previsões;
O mundo será governado
Pelos corações.
A mata virgem cobrirá
O cinza das casas;
Os homens compreenderão
Que são raízes e asas:
Podem voar no infinito
Ou enterrarem seus bonitos
Corpos no chão.

Otacílio César Monteiro
Registro Biblioteca Nacional RJ