Mentira

Dizem que o vento sopra canções,
traz murmúrios de saudade,
recados de outros tempos
tirando o pó da memória.
Eu presto toda a atenção,
mas acho que é tudo estória.
No vento que sopra lá fora,
não há nenhuma canção.
É tudo mentira.
É tudo ilusão.

José Farid Zaine
Registro Biblioteca Nacional RJ

Um anjo

Um anjo pousou
no meu sonho
de longas esperas.
Suavemente,
com a leveza
e a transparência
das quimeras...
Abriu-me um sorriso
de quem traz nas mãos
o sinal do paraíso...
Esse anjo
brincou com meus desejos,
sacudiu os cabelos
despejando estrelas
sobre a noite do meu corpo...
Um anjo pousou
no meu sonho
e cantou no meu ouvido,
sem harpas ou flautas,
e o seu canto gotejou doçura
no meu coração ferido.
Depois se fez real
para o meu abraço,
para o sinal da minha sede;
deixou na minha boca
o gosto angelical da sua pele...
Um anjo pousou
no meu sonho,
soprou as fagulhas,
baniu as cinzas
que ocultavam as brasas...
...depois, pra que eu pudesse acordar,
partiu carregando meu sonho
no ruflar de suas asas!

José Farid Zaine
Registro Biblioteca Nacional RJ

Para Lorca

Como um dia claro,
como um claro dia
me atravessa
esse teu verso;
como corda
de guitarra
faz vibrar meu coração.
Me apunhala
a tua canção,
doce punhal cigano
que me fala
de emoção;
amigo, hermano,
amor de flor
de laranja,
braseiro
e candentes paixões,
me embala
o teu cancioneiro
de verdes,
ardentes visões.
Tão cedo
perdeu-se a tua voz.
Tempos de medo
e facas e balas
de trilhas exatas
por tuas “carnes
assombradas”;
calou-se o teu grito,
Federico.
Mas quero vivos
teus versos
como seiva nova
pelo tronco seco,
como relva e flores,
com o eco da voz
dos cantores...
teus algozes estão mortos
no limbo do esquecimento
e tu serás, para sempre,
como o lírio
sobre o mangue.
Tens o prêmio,
Federico:
toda rosa é reverência
à memória do teu sangue!

José Farid Zaine
Registro Biblioteca Nacional RJ

Mozart

A noite vai caminhando
em busca da madrugada.
Há uma luz esperando
sobre uma rosa fechada.
Há um luar se espalhando
pela cidade deserta.
Há um romance escapando
pela janela entreaberta...
...e todo o céu escutando,
com seus ouvidos de prata:
é Mozart que vai tocando
a pequena serenata...

José Farid Zaine
Registro Biblioteca Nacional RJ

Sonhei que morrias...

Sonhei que morrias
e o meu coração
parou um pouco de bater;
parou o ar,
parou a luz,
parou o mundo...
Já não podia haver a vida
sem o teu sorriso,
a luz sem teus cabelos,
o som sem tua boca,
o amor sem o teu corpo.
Sonhei que morrias
e contigo se calavam
cachoeiras,
o rumor das ondas,
as canções do vento...
...e mortas, desfolhadas,
todas as rosas arrancadas
perfumando um vão lamento!

José Farid Zaine
Registro Biblioteca Nacional RJ

Lua de maio

Olhei a lua de maio
além da janela,
por detrás dos ramos,
por detrás das grades;
olhei a rua negra de noite,
a rua azulada
deitada sob o clarão.
Brota poesia,
gota-a-gota
verso-a-verso
sangria inversa
para encher o coração;
primeiro, porém,
é preciso beber
a lua inteira
para o poema aparecer:
etéreos sons de piano e violino
me elevam aos anjos
– sobe a alma, fica o corpo -,
neurônios libertam demônios
e me trancam no meu quarto.
Encurta a distância
entre o céu e o inferno,
e eu tenho que mergulhar
na solidão do meu caderno.
Eu vi, por trás dos ramos,
a me espreitar, de soslaio,
o olhar do meu leitor
por trás da lua de maio:
chama forte de fogueira
querendo me atravessar
com sua flecha certeira...
Na solidão do seu quarto,
em cada letra impressa no papel
estarei eu, repartido,
estarei despido sem pudor
e tudo estará revelado
aos olhos do meu leitor:
tudo que foi começado
de forma calada e crua
sob a vigia da noite
que é o olho aberto da lua...

José Farid Zaine
Registro Biblioteca Nacional RJ

Aceno

Quando eu repito
“te amo”
olhando-te nos olhos,
não espero sinos,
címbalos, trovões;
não espero revoada de anjos
rosados e azuis,
não espero que o universo paralisado
fique suspenso, sem respirar...
Não espero mutações
nas formas
nem que o mundo promova
transgressões
de suas normas.
Quando eu repito
“te amo”
quero apenas a estrela
dos teus olhos
cintilando
num breve aceno de esperança!

José Farid Zaine
Registro Biblioteca Nacional RJ