Paranóia

Meu quarto é tudo.
Nada tem graça.
Olho pela janela:
O mesmo gato...
O mesmo muro...
Não existe amanhã...
Não existe!
A abelha está para o mel,
Assim como
O rosto está para o véu,
O anjo para o céu...
(E eu?)

Vejo casais de namorados.
Seguem felizes
E me enojo da minha inveja.
fico pensando:
“O que os mantêm unidos?”
Que dia é hoje?
Perdi a noção do tempo.
Ela já não passa
Pela calçada da rua 45.

Alberto Tadeu dos Santos
Do livro – Verso e Reverso

A Mensagem

(500 anos depois, um membro da família Vaz de Caminha volta ao Brasil e ralata)

Terra à vista
à prazo
à prestação

Muito sangue suor opressão

O ouro “a qualquer custo”

Conquistar, catequizar, colonizar, escravizar
Foram ordens do Rei

Fincar bandeira
Rezar a missa
Tomar posse

Indústrias, poluição
Políticos, religião
Carnaval, futebol
Musas, paixão

Conquistar, catequizar, colonizar, escravizar
Foram ordens do rei

O tempero, a culinária
O tempero, a mistura de raça
Os nativos continuam sendo mais nossos amigos
Do que nós amigos deles
Suas praias são belas e belas são suas mulheres

Conquistar, catequizar, colonizar, escravizar
Foram ordens do Rei

Mal sabia o Rei que quem nos conquistou foram eles

portugal@vazdecaminha.com

Alberto Tadeu dos Santos
Do livro – Brasil 500 anos

A lenda

Era uma vez uma caravana,
Um frei, uma semente

Era uma vez, uma caravana,
Um frei, a morte

Era uma vez, a semente
A terra fértil, a chuva, a vida

Era uma vez Limeira

Alberto Tadeu dos Santos
Da Coletânea - CPPoesias

Abandono

Nem plágio
nem inspiração.
Na mesa papéis,
folhas em branco.

O violão solitário
num canto da sala,
toda preguiça me invade.

Falaria de amor,
mas me causaria a
paralisação da vida.

A morte? A morte
não viria...
Pois como tudo
neste momento,
ela também me abandonaria.

Alberto Tadeu dos Santos
Do livro Verso Livre

In Sônia

A lua já disse boa noite,
mas meus olhos insistem em vigiá-la.
É que lembranças caem como chuva em
minha cabeça provocando enxurradas de
dúvidas que afogam meu espírito.

Fecho os olhos, submergem perguntas
(o que é preciso pra ter você de volta?).
Naufragosos ímpetos fazem com que me vista
de personagens: piratas; heróis, conquistadores.
Mas eu ainda continuo aqui,
perdido nesta ilha chamada paixão.

Alberto Tadeu dos Santos
Do livro – Verso e Reverso

O Bêbado

O bêbado é
A cidade que balança
No final de uma noite de prazer

O bêbado é
A loucura da cidade ao anoitecer

O Bêbado é
Procurar a liberdade
E depois desaparecer

O bêbado é
O não compromisso, vadiagem
É sobreviver

O bêbado é
O outro personagem
Que a vida passa a apresentar

Alberto Tadeu dos Santos
Do livro Verso Livre

Réquiem

Meu corpo inerte, gelado.
O coração, aquele que me guiou
por tanto tempo está parado.

Mulheres e homens chorando,
crianças, brincando, rezas,
terços, Ave-Maria, Padre Nosso.

Pessoas me tocam e se benzem
como se eu fosse um santo,
enquanto o padre garante
à minha família
que eu estou no céu
(do pó vieste, ao pó voltará, etc...)
E todos parecem conformados.

Mas essa certeza nem eu tenho.
Por enquanto estou aqui: inerte,
gelado e com o coração parado.

Alberto Tadeu dos Santos
Do livro – Verso e Reverso